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Traição de Judas
A traição de Judas é comum nos quatro Evangelhos, mas o relato de um conluio entre ele e os principais sacerdotes (Mateus 26,14 ; Marcos 14,10), com ou sem os anciãos ou os capitães (Lucas 22,4), encontram-se apenas nos Evangelhos sinópticos (do grego syn-opsis = olhar de conjunto , ai são incluídos Mateus, Marcos e Lucas), e apenas neles é contada a história do dinheiro (Lucas 22,5) ou das trinta moedas de prata (Mateus 26,15), convencionadas como objeto da traição.
O Evangelho segundo Joâo diz apenas que o “demônio” foi “colocado no coração de Judas Iscariotes, filho de Simão, para traí-lo” (13,2); que Jesus “angustiou-se” e disse: “Em verdade , em verdade vos digo, que um dentre vós me trairá” (13,21); e que quando “Satã” entrou em Judas, Jesus lhe disse: “O que pretendes fazer, faze-o depressa” (13,27); e que Judas na verdade o traiu. Mas não há qualquer menção de qualquer conluio entre Judas e os judeus, ou qualquer outra pessoa ou grupo identificado.
Segundo João, portanto, pode ter havido um conluio entre Judas e os romanos, o que explicaria a participação destes na prisão de Jesus.
Outro fato a ser analisado é o regresso de Jesus a Jerusalém, em que o fez aberta e triunfalmente: ”Muita gente que viera á festa” ouviu antecipadamente que ele estava para chegar (João 12,12), não podendo haver dúvidas de que as autoridades - se estivessem interessadas nele –sabiam de sua eminente chegada.
Jesus cavalgou um asno (João 12,14), para ser recebido com ovações prolongadas (João 12,13; Mateus 21,8-10). Ora, diz-se que a conspiração entre Judas e os sacerdotes foi arranjada dois dias antes da festa de Pessach (Marcos 14,1; Mateus 26,2), isto é, no próprio dia da entrada ou no dia seguinte, quando todos já sabiam onde ele se encontrava. Se Judas realmente queria trair Jesus, bastaria apenas denunciá-lo como rebelde ou zelota e podia estar certo de uma ação rápida.
A própria historia do beijo é algo improvável, pois Jesus era uma figura bastante conhecida e, como alguém que reunia grandes multidões, nã estava distante do olhar das autoridades romanas.
O fato é que ao longo da história, aprendemos que os judeus crucificaram Jesus, embora esse fosse um procedimento usado pelos romanos. Quando o movimento cristão crescia instalando-se em Roma e aliava-se ao poder estatal, houve necessidade da conversão dos romanos. A história parece que foi sendo alterada, imputando a culpa em um povo que vivia sobre jugo invasor.
Quem matou Jesus foram os romanos; não porque um seguidor importante o denunciou, mas o que este seguidor acreditava e com muita certeza apregoava, no geral ser seu mestre, o “Rei dos Judeus”, anunciados pelos profetas no antigo testamento. O imperador, figura com poderes divinos sobre tudo e todos, era quem indicava os reis dos povos conquistados e no caso da Judéia, era Herodes. Se alguém se intitulava rei, pagaria com a vida, e se o governador não tomasse providências da lei sobre um assunto tão grave, teria com certeza servido de exemplo para outros governos do império, como de fato ocorreu algumas vezes, e que pagaram com a vida um ato tão relapso.
Jesus foi morto pelo crime de “lesa majestade”, porque os judeus acreditavam que ele era o Rei dos Judeus, e Judas e os apóstolos, talvez acreditavam mais do que ninguém. Quando da prisão, todos fugiram, Judas, provavelmente colocando todos os seus sonhos nas promessas de Jesus para aquele momento e vendo tudo exterminado e com medo, suicida-se.
Ele serviu muito bem aos propósitos ulteriores, para imputar a culpa em um povo que naquela época sofria o jugo romano e na formação de um poder religioso que aliou-se intrinsecamente ao poder de Estado, criando-se, assim, uma nova e eficiente máquina de domínio, que estende-se por dois milLnios e que ainda não permite que o indivíduo questione as escrituras sagradas.
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