Centro Espírita Seareiros de Jesus

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Edição: outubro/2003 - n° 60 - ano 6   Autor:  Leandro Reami

 Pirapitingui - Retratos de uma vida oculta
 

                Ao passar pelos portões, pode-se avistar um grande campo de futebol, jardins floridos, muitas mangueiras e mais a frente um barzinho com mesas ao sol, onde pessoas se refrescam com uma bebida gelada. Aos finais de semana muitas pessoas visitam o local, deslumbram as belezas naturais e a simplicidade dos habitantes. As casas são antigas e preservam suas características originais; o Sr. João, há 15 anos tem aqui sua barraca de frutas e garante que à sombra da mangueira fica o seu escritório.

                Thiago hoje tem três anos, é filho da Sra. Tereza e é neto da Dona. Antônia, todos moradores da mesma vila e vítimas do mesmo esquecimento.

                A Dona Antônia veio para o Pirapitingui aos 22 anos, trazia um filho no colo e outro na barriga. Quando seu marido soube que era portadora do mal de Hansem, a pôs para fora da casa e se mudou para outra cidade, com medo da re-percussão que poderia ocorrer entre os mora-dores ao saberem que sua esposa era leprosa.

                Dona Antônia pro-curou ajuda e encontrou em Pirapitinguí, distrito de Itu, um Hospital Colônia de portadores do mal de Hansen, ou Hanseníase, mais conhecida como Lepra.

                No Brasil, o primeiro registro que comprova a presença da hanseníase data de 04 de novembro de 1697 e o tratamento destinado era e continuou por muitos anos, o mesmo dos tempos bíblicos: o isolamento da sociedade. Por isso a criação dos Hospitais-colônias para os portadores da moléstia, ou como também eram chamados: os "Lazarentos", que seriam os hospitais para hansenianos e enfermaria para os presos e escravos.

                O principal objetivo da construção destes hospitais, era de isolar os indivíduos contaminados, para controle da proliferação da doença, entretanto, o desconhecimento por parte da população, fez com que as vítimas da doença fossem esquecidas, ignoradas.

                A Dona Antônia sofreu exatamente este preconceito, que fez com que ela, só se sentisse segura dentro de um Hospital Colônia. Lugar que ficou isolada por 10 anos sem sair. Nos 25 anos de interna do Pirapitinguí, viu seus filhos crescerem, estudarem e se casarem com filhos de outros internos e por fim, viu seu neto nascer.

                Os internos são mantidos pelo estado, que lhes fornece casa, alimentação, tratamento médico e por doações que são enviadas por entidades filantrópicas e religiosas.  Mas no caso da Dona Antônia, como de outras famílias que não tem condição financeira, não tem como sobreviver fora do Hospital Colônia, e o governo, não dispõe de recursos para continuar mantendo estes hospitais, o que preocupa ainda mais os pacientes.

                Desde a antigüidade a hanseníase era conhecida e, os doentes eram reunidos em locais isolados e distantes dos povoados, vivendo das ofertas e caridade de parentes que levavam alimentos e vestuários, deixando-os em determinados pontos para que os doentes, depois que as pessoas saíssem, fossem buscar.

                Aproximadamente 2000 anos depois, caravanas de entidades filantrópicas e religiosas se dirigem até estes hospitais, "os locais isolados", com a finalidade da caridade.

                A comunidade espírita americanense junto as demais comunidades da região como Piracicaba, Limeira, Campinas e outras do ABC paulista, realizam visitas às instituições de recuperação, asilos e de tratamento de doentes e há vinte anos realizam no terceiro domingo do mês, caravanas com destino ao bairro Pirapitingui em Itu, SP.

                Para conhecer esta realidade é recomendável a visita ao local e a leitura de livros como: "A extraordinária vida de Jésus Gonçalves", de Monteiro, Eduardo Carvalho - Ed. Espírita Correio Fraterno do ABC.  1980.

 Leandro Reami
Leandroreami@horizon.com.br

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